O FIO DA SUSPEITA
waldomelazzo @ 23:19
| O fio da suspeita |
| por Dora Kramer - O Estado de S. Paulo |
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A proposta de criação de uma televisão do Poder Executivo não seria, em princípio, uma idéia má. Ainda mais quando se tem o exemplo das televisões dos Poderes Legislativo e Judiciário. Criticadas no início, principalmente a pioneira TV Senado, as emissoras, há que se reconhecer, prestam um bom serviço ao cidadão.
Se, de um lado, alimentam vocações exibicionistas, de outro permitem que a população acompanhe em tempo real, e sem cortes, algo antes só possível a quem tivesse trânsito permitido nas dependências daquelas instituições inacessíveis à maioria. Há que se reconhecer, em penitência, o equívoco de avaliações da época, que levaram em conta apenas os custos, sem considerar os benefícios. As transmissões de julgamentos importantes, sessões de votações de interesse público, comissões parlamentares de inquérito, discussões em comissões permanentes, exposições de ministros e mesmo os debates do dia-a-dia no Congresso são politicamente educativos. Para o bem ou para o mal. Ajudam a sociedade a formar juízos. A TV do Executivo poderia se inserir nesse cenário e é com o argumento desses exemplos que o governo defende a proposta de criar uma estrutura para dar conhecimento de seus atos 24 horas por dia a todo o território nacional. O problema não é a proposta, mas o que está (ou pode estar) por trás dela e o histórico de quem a faz. A idéia gerou imediata desconfiança. Plenamente justificada pelo insistente flerte com o autoritarismo e o gosto pelo modo publicitário de governar. Quem enxerga nas críticas conspiração, vê excessos na liberdade de expressão, não disfarça a preferência pela interlocução via propaganda e desvaloriza a mediação institucional não pode reclamar quando é alvo da suspeita de que esteja querendo criar uma rede de televisão para ter nas mãos um instrumento que lhe permita ignorar todas as demais instâncias da democracia. Se não é isso o que o governo Luiz Inácio da Silva pretende, é preciso haver uma explicação convincente o bastante para desarmar os espíritos armados não por suposições, mas por fatos objetivos. Além do quê, o Poder Executivo já tem vários instrumentos à disposição: emissoras estatais de rádio e televisão, A Voz do Brasil, a Radiobrás, o programa semanal do presidente no rádio, a prerrogativa de convocação de rede a qualquer tempo e mais a preponderância do noticiário sobre o governo nos veículos privados. Se isso não basta é de se perguntar o que, então, bastará para satisfazer a necessidade do governo de se comunicar com a população |

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